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sexta-feira, 21 de março de 2014

A psicanálise no berçário. Uma intervenção impossível.

Karina F. Bonalume Freire
Supervisão: Paulina Rocha
Texto apresentado do congresso da ABEBÊ (Associação de estudos sobre o bebê em Brasília)
Desde sua fundação o Espaço Singular, como o nome singular já anuncia, tem a difícil, se não impossível tarefa, de articular a prática pedagógica ao saber  psicanalítico.  Como diz Freud, são três as tarefas impossíveis: governar, psicanalisar e educar. Estamos entre elas. Acompanhamos as principais fases da constituição psíquica, uma vez que recebemos crianças de três meses a cinco anos.
Cuidamos de bebês e de crianças muito pequenas, tentando unir este dois saberes para que deem voz aos que não podem dizer, aos que são falados pelo outro, mas que nem por isso estão excluídos da linguagem.
Mais do que tentar impor um saber psicanalítico sobre o saber pedagógico, tentamos usar a psicanálise enquanto alicerce para melhor acolher os sujeitos que em sua articulação formam o ambiente escolar: bebês, crianças muito pequenas, pais e equipe interdisciplinar (pedagogos, educadores, T.O, psicanalista, fisioterapeuta e auxiliar de enfermagem). Sustentamos que a prática pedagógica seja evidenciada, e não pretendemos transformar os educadores em psicanalistas. A psicanálise funciona como  o que  forma e sustenta a rede de escuta institucional. A escuta desta prática e de toda a articulação institucional pode dar lugar a fala ao invés do agir.
De origem francesa, a palavra “creche” significa manjedoura. Abrigos para bebês, criados na França do século XVIII, a partir da necessidade das mulheres complementarem a renda familiar.  Desta forma as creches nasceram de uma necessidade socioeconômica e mantém este status até o momento. Atualmente as famílias deixam bebês em creches sustentadas pelo estado, ou em instituições particulares, que denominam-se berçários e em que pretende-se cuidar  do infans e educá-lo.
Como localiza Jerusalinsky em seu texto, Falar uma Criança, o ato educativo não se restringe de forma alguma aos professores, mas abrange todos aqueles que em sua prática se valem de indicações, de um saber constituído que se tem de pedir ao outro. Contudo, há algumas disciplinas, que ficam no meio do caminho, entre o educativo e o médico, ou entre o psicanalítico e o educativo, como a psicopedagogia clínica.
Ainda segundo o autor não há de se ensinar um bebê, transmite-se a ele. Jerusalinsky define transmitir como operar de modo que o outro se aproprie de algo que já está feito, em oposição ao ensinar, que define como construir algo que se supõe como não feito. 
Mas o que dizer da escola de bebês que também deve se situar neste meio caminho, entre a família e o mundo? Como transmitir algo a um bebê, quando o vínculo da educadora se dá pela identificação com a função e não com a criança em particular? Ao pensar a escola, pensamos em crianças e sua permanecia nela irá marcar o tempo da infância, tempo este que se estende com a entrada cada vez mais precoce de bebês no ambiente escolar.
Ainda em seu texto Falar uma Criança (1997), Jerusalinsky coloca algumas observações importantes. Mães falam com seus bebês, mesmo que entendam que os bebês não entendem o que dizem. Se não o fazem, se não falam com seus bebês, o autor deixa claro, entendemos que algo vai mal. Mas então, coloca o autor, se sabem que seus bebê não compreendem exatamente o que dizem,  para que lhes falam? Falam porque supõem ali um sujeito e dão significado `as suas vivências.
Sua segunda observação é a de que os bebês são colocados em uma série, em que os que falam este bebê, cuidadores ou a mãe, lhes situam em um tempo entre o que aconteceu antes e o que se supõe o que acontecerá depois. “Uma senda de significações”.
E terceira observação é a de que nada que o bebê faz é tomado como tal, seus gestos são interpretados e falados pelo cuidador. O que situa os bebês no campo da linguagem, apesar de não falarem. O outro oferece a fala ao bebê.
A possibilidade de se ter um psicanalista que circule pela escola e escute o que todos tem a dizer enriquece o ambiente escolar. Nesta escuta, o psicanalista tenta articular o saber pedagógico  com o lugar que o sujeito falante ou no nosso caso, muito frequentemente, não falante, ocupa.
Um gesto de uma criança, um olhar, as sonoridades, a atmosfera, tudo deve ser levado em conta na manutenção do cuidado com os educadores, crianças e  a interpretação a que se atribui ao cotidiano.
Recorte de uma cena:
“Gabriela, nome fictício,  tem seis meses e está em adaptação na escola. Chora muito quando as educadoras a colocam sentada no chão, e apenas se acalma quando está no colo. A psicanalista observa a angustia das educadoras que com Gabriela no colo, não conseguem cuidar dos outros bebês. Pega Gabriela e a acalma em seu colo,  sentada no chão. Aos poucos coloca Gabriela sentada no chão ao lado dela e depois se distancia lentamente, conversando com ela em um tom baixo e calmo. Com isso Gabriela consegue se distrair e brincar por um tempo com os brinquedos. Mais tarde vejo as professoras usando a mesma ‘tática’ com Gabriela, que com isso consegue se adaptar. Primeiro ela passa a brincar com a mãozinha nas pernas da professora e depois passa a se distanciar olhando a professora e por fim consegue se distrair com os brinquedos”.
Segundo Mariotto (2009), um ambiente enriquecido para o bebê de poucos meses é aquele que se dá a partir do laço com o outro, e neste contexto o olhar e a palavra devem ocupar postos privilegiados, colocando em evidência também a qualidade deste outro. 
Pensamos que a construção deste laço tem sua continuidade na escola. Educadores se tornam alicerces da constituição psíquica.  E é desta forma que a linguagem deve ser levada em consideração em toda a extensão do discurso institucional.
No trabalho com o bebê  e com crianças muito pequenas, esta articulação se faz possível e necessária uma vez que por não estarem incluídos em uma rede simbólica, a escuta e as intervenções do psicanalista auxiliam ao educador manter a cadeia de significações singular de cada criança, seja falando pelo bebê, seja flexibilizando regras para que a família e criança se sintam acolhidas no ambiente escolar. Flexibilizar rotinas para que a cadeia singular família/bebê possa ser mantida até que o bebê cresça e possa se adequar sem riscos `a  forma de operar de uma escola. Neste sentido a escola tem como função sustentar a lógica parental sobre o bebê, uma vez que este é sustentado a partir desta mesma lógica.
Desta forma sustenta-se a singularidade de cada família e a escola se oferece como uma nova experiência de relações sociais que não deixam de ser regidas pelo conhecimento da constituição psíquica e desenvolvimento do bebê. Claro que não iremos falar com um bebê como se fala com um adulto. Leva-se em conta o lugar social e desenvolvimento do bebê.
Recorte de uma história no plantão psicológico:
“Rafaela, como a chamaremos aqui,  entrou na escola com dois anos. Muito agitada, batia em todos `a sua volta: em alunos, professores e auxiliares. Após conversar com a mãe descobrimos uma família que organizava pouco a rotina da criança.
Preocupada solicito a psicanalista. Esta após observar a criança e conversar com a mãe, a encaminhou para tratamento. A mãe contudo, procurou auxílio da psicóloga que havia atendido sua filha mais velha anos atrás. A psicóloga foi categórica ao dizer para a mãe e para a escola que a criança era muito pequena para ser atendida. A partir desta fala a mãe passou a se mostrar resistente a qualquer intervenção e Rafaela passou a ter crises de agressividade em sala de aula. Pais de outras crianças chegaram a solicitar a saída da aluna junto `a coordenação escolar. Diante deste quadro, a psicanalista decidiu estender o plantão psicológico, isto é, acompanhar Rafaela e reservar momentos para estar apenas com ela, por um período que podia se estender em até uma hora semanal durante todo o ano letivo. Normalmente o plantão consiste em três observações da criança e conversas/devolutivas para os pais. Em paralelo aos “atendimentos” de Rafaela dentro dos muros escolares, sempre que possível,  a psicanalista conversava com a mãe e com o pai de Rafaela quando estes vinham buscá-la na escola. Desta forma nos foi possível cuidar de Rafaela e dos pais e com isso formar um vínculo em que a demanda de tratamento se fez possível.”
Enquanto que em uma escola a tendência é a de unificar as demandas, a fim de facilitar a rotina, o olhar do psicanalista e sua intervenção frequente junto `a educadora em sala de aula, cria borda para que outros laços aconteçam. Porque é na uniformidade que se dá o traço cultural, mas ele deve estar inserido sem que se perca o traço singular de cada individuo. O social irá dar espaço `a cultura. A partir das regras, abre-se espaço para a criatividade, lugar possível de criação de novas coisas que a criança deve pertencer.
Contudo, por mais que tudo funcione, que se ensine, a ausência das diferenças na unificação de rotinas e procedimentos, lançaria a criança muito pequena na angustia de perder o traço que a representa. Desta forma nada lhe seria transmitido.  Cabe ao psicanalista, construir com a equipe  institucional o sentido de cada vivência. Muitas vezes pequenas intervenções auxiliam para que a ritmicidade tão necessária neste momento aconteça de forma adequada.
Recorte de uma cena:
“A psicanalista chega a escola pela manhã, encontra um bebê  de um ano e dois meses chorando muito. Aflita a educadora explica que ele está fazendo birra porque um brinquedo não lhe foi dado. Neste momento, a psicanalista acalmando o bebê,  inicia um jogo de cadê/achou. A educadora, retirada de sua aflição, consegue entrar no jogo. A psicanalista saí de cena deixando os dois brincando. Mais tarde, informada sobre o ocorrido, reservo um tempo para conversar com a educadora e falo sobre a importância para o bebê dos jogos de esconder e seu papel fundamental na elaboração das representações para o infante.”
Recorte de uma cena onde a intervenção de um terceiro, pode fazer surgir o jogo de presença/ausência, e que um ritmo no laço foi estabelecido onde o discurso se impunha: “Ele está com birra”.  Uma outra cena foi montada entre educadora e bebê sem que nada tivesse que ser dito. Mas abriu-se a possibilidade de uma reflexão sobre o ocorrido em um tempo a posteriori. Disto um novo saber sobre os bebês pode se formar. Algo novo pode lhe ser transmitido. Ao bebê e a educadora.
Segundo Jerusalinsky, (1997) o falar da mãe com seu bebê e suas suposições e interpretações sobre o bebê o insere no campo das significações. A mãe ao supor algo sobre seu bebê supõe que este está referido a uma sequência de coisas que tem sentido para ele, se chora, por exemplo, a mãe supõe que algo desta cadeia se rompeu e busca um sentido para isto.
A educadora, através da identificação com o trabalho, de sua própria escolha profissional é convidada a sustentar este registro do bebê. Muitas vezes, contudo, se perdem na sustentação de uma função, ou porque para aquele bebê, em uma determinada  situação, não  lhes foi possível supor nada. O psicanalista dará espaço para que neste limbo, algo se construa.
O lugar social da criança na escola faz borda, dá contorno subjetivo na medida que dá à criança um lugar social onde ela como sujeito pode ser falada por um outro e escutada.
Desta forma a escola pode vir a oferecer a criança a articulação entre dois eixos importantes para o desenvolvimento, com três sequencias temporais. Via linguagem: Falar (muitas vezes falar pelo bebê), ser ouvida e poder aguardar para o próximo momento de fala. E na ação: Agir, esperar a próxima ação do adulto, para então interagir. Eixos importantes que dão borda as angústias infantis. Uma escola com esta dinâmica e todos os enquadres sociais que a organizam proporciona, ao meu ver, uma educação terapêutica por si só. Contudo sua articulação com o saber psicanalítico garante um lugar de escuta, de ritmo, em que o discurso e interação possam aparecer.
O lugar do psicanalista nos corredores, no portão, em sala, em plantões de atendimento dá espaço para que o discurso deslize em diversas direções, seja no olhar do bebê, seja no discurso da educadora ou  dos pais.
Kupfer (2000) afirma que para Lacan, o discurso é o que faz o laço social estruturante por atrelar o falante ao Outro. A autora afirma que, desta perspectiva o educar insere a criança na linguagem, tornando-a capaz de produzir discurso, dirigindo-se ao outro e fazendo com isso laço social.
A escola é o lugar social de toda e qualquer criança. A escola lhes dá abrigo social e uma identidade, exatamente porque podem construir discurso sobre suas ações.
Desta forma para além da prevenção, a inserção da psicanálise nos corredores escolares deve ser entendida em sua função primordial, atrelar, fazer valer o sujeito ao seu discurso.
Não importa qual o sujeito que fala: Os pais ao deixarem seu bebê, a educadora que o acolhe, a gestora ou o porteiro da escola. Ter um lugar de fala, poder ser escutado,  marca no espaço institucional o compromisso com o que se diz e faz, mesmo que muitas coisas, em uma pré-escola sejam ditas pela linguagem não verbal.

“O ato de educar está no cerne da visão psicanalítica de sujeito. Pode-se concebê-lo como ato por meio do qual o Outro primordial se intromete na carne do infans, transformando-a em linguagem. É pela educação que um adulto marca seu filho com marcas do desejo;.” (Kupfer, pag. 35)

Desta forma ao educar, fazer valer o desejo da cultura de que crianças aprendam e cresçam,  insere a criança por si só em um lugar de identidade. Lugar de criança. Contudo o olhar do psicanalista irá prevenir que os bebês, que hoje também tem seu lugar social na escola, não se percam onde tudo é social e se encontrem em sua singularidade no olhar atento de uma educadora,  que cuidada, pode cuidar. Que ao dizer, pode dar sentido ao não dito.  Que ao falar, poderá dizer algo sobre sua relação particular com cada bebê.

Quando há uma questão no laço entre educadora e bebê ou entre a mãe e bebê, o psicanalista, que neste sentido representa a escola, pode agir como um terceiro que monta outra cena, ajudando, por exemplo a significar uma dificuldade sem que as famílias sejam expostas ao saber pedagógico em que se sabe o que é melhor para o bebê.  Poder ouvir sem jugar, da contorno e sustentação para que a rede familiar  em sua singularidade se sustente na escola, em uma construção permanente e que deve ser cercada de muito carinho.


















REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS

JERUSALINSKY, Alfredo. A escolarização de crianças psicóticas. Estilos da Clínica. Revista Sobre a Infância com Problema. São Paulo: Pré-escola lugar de vida, 1997.

___. Falar uma criança. Revista Escritos da Criança, n. 1, Centro Lydia  Coriat de Porto Alegre, Porto Alegre, 1997.

KUPFER, Maria Cristina Machado. Educação para o futuro. 2a ed. Psicanálise e Educação. São Paulo:  Escuta, 2001.

MARIOTTO, Rosa Maria Marini. Cuidar, educar e prevenir: as funções da creche na subjetivação de bebês. Infância e Psicanálise. São Paulo: Escute, 2009. 



segunda-feira, 18 de novembro de 2013

A Interdisciplinaridade no Espaço Singular

          Desde sua fundação em 2006, o Espaço Singular se propõe a cuidar de bebês e de crianças muito pequenas a partir de uma rede interdisciplinar, composta por psicólogos, psicanalistas, terapeuta educacional, fisioterapeuta, pedagogos, enfermeiras e educadores. Somos uma escola construtivista em que esta rede de conhecimento se faz presente para amparar o ato educativo, as crianças e suas famílias na construção do conhecimento.
Esta equipe interdisciplinar participa do cotidiano das crianças e suas famílias na escola e forma os educadores no sentido de um olhar mais sensível para as reais necessidades das crianças.  Com esta formação todos os educadores podem levar em consideração a singularidade de cada aluno.
Mais do que tentar impor os diversos saberes sobre o saber pedagógico, tentamos usa-los enquanto alicerce para melhor acolher todos que em sua articulação formam o ambiente escolar: bebês, crianças muito pequenas, pais e equipe. Sustentamos que a prática pedagógica seja evidenciada e que haja uma constante reflexão de sua prática.
Um gesto de uma criança, um olhar, as sonoridades, a atmosfera, tudo deve ser levado em conta na manutenção do cuidado com os educadores, crianças e  a interpretação a que se atribui ao cotidiano escolar.
Entendemos que um ambiente enriquecido para a criança pequena é aquele que se dá a partir de bons encontros, e neste contexto o olhar e a palavra devem ocupar postos privilegiados, colocando em evidência também a qualidade deste encontro. Desta maneira podemos, mais que ensinar, transmitir `as crianças. Construir com elas e suas famílias,  conhecimento de qualidade e com profundidade em uma construção permanente que deve ser cercada de muito carinho.



segunda-feira, 4 de março de 2013

Atirei o pau no gato...


Atirei o pau no gato...
Este é um assunto polêmico na educação, pelo menos aqui no Espaço Singular. Devemos ou não cantar a cantiga infantil “Atirei o pau no gato”.  
Desde que o Espaço Singular foi fundado me deparo com uma continuação da música que orienta as crianças a não atirar o pau no gato, mais ou menos assim:
‘Não atire o pau no gato porque é feio, não machuque os animais”
Existem diversas versões deste desfecho, mas a ideia é sempre a mesma. Orientar as crianças a não machucar os animais.
Oras, se o adulto que canta a música acha que ao cantá-la estará instigando a agressividade das crianças com relação ao pobre gato, sempre há a opção de não cantá-la. Acho particularmente esquisito cantar uma música, para imediatamente corrigi-la.
Penso que a música é inofensiva, mas do que isso, acho que, tal qual os contos de fadas, ajuda a criança a elaborar sua própria agressividade e entender que seus atos, por ainda ser uma criança pequena, não tem poder de matar o outro.  “Atirei o pau no no gato, mas o gato não morreu”. Dona Chica, por sinal, representa o mundo adulto que se admira com o ato da criança e seus efeitos.
Aqui no Espaço Singular, a maioria de nós,  entende que os contos de fadas, as cantigas, tem uma função para a criança, função de elaboração psíquica e por isso, só por isso, foram capazes de sobreviver oralmente por tantas gerações.  Mas, quando nos deparamos com uma  educadora que pensa que a música é agressiva, politicamente incorreta, ela  é respeitada em sua opinião, mas orientada a simplesmente não contá-la, cantar outras músicas no lugar desta, que não exijam uma correção moral. E vocês, o que pensam sobre isso?

terça-feira, 27 de novembro de 2012

INTERDISCIPLINARIDADE EM UMA INSTITUIÇÃO


TEXTO APRESENTADO POR VERA MEIRELLES EM PALESTRA REALIZADA NO ESPAÇO SINGULAR EM  24 DE NOVEMBRO DE 2012. ESTIVERAM PRESENTES PAIS, EDUCADORES E EQUIPE DO STUDIO SAPU.

PALESTRA SOBRE A INTERDISCIPLINARIDADE EM UMA INSTITUIÇÃO

Pensamos em promover esse encontro  em função das reformas que acontecerão aqui no final de ano e torná-los a par da escolha pedagógica do Berçário que segue a linha Construtivista.
Existe uma concepção sobre o Construtivismo que simpatizo muito: “significa a idéia de que nada, a rigor está pronto, finalizado e de que, especificamente, o conhecimento não é dado, em nenhuma instância como algo acabado, ele está sempre em movimento. Ele se constitui a partir da interação do indivíduo com o meio físico e social, com o simbolismo humano, com o mundo das relações sociais e se constitui por força de sua ação e não por qualquer dotação prévia”.
Essa escolha pedagógica que reúne várias competências tem como foco a complementaridade de um “olhar” sobre a criança e seu entorno. 
O Berçário Espaço Singular, conta com uma equipe multidisciplinar composta por pedagogos, psicólogos, psicanalista, nutricionista, psicopedagogos, fisioterapeuta, terapeuta ocupacional, auxiliar de enfermagem, pediatra, cuidadores e agora uma arquiteta visando, todos, promover um “lugar” para as demandas manifestadas pelos bebês, ao longo do seu crescimento.
 A Interdisciplinaridade e o Construtivismo estão na mesma linha de pensamento. A Reforma a ser feita é um exemplo dessa construção interdisciplinar assim como o nosso objetivo, também é formar uma equipe que tenha um conhecimento sobre essas diversas disciplinas, desta forma a equipe se aperfeiçoa, assim com eu. A Escola também valoriza a participação da família e a função parental nos diversos aspectos do desenvolvimento dos pequenos e por isso seu interesse em querer que os pais se apropriem também, dos dispositivos e lugares que esta lhes oferece.
A presença dos pais é fundamental para a passagem da família para o mundo de vocês. Vocês contribuem, estando em sintonia conosco, para a futura socialização. Tem uma passagem da família para a escola. Aqui é um lugar de separação e encontro com a procura. É difícil para os familiares assim como para as crianças. A comunicação entre a equipe e os pais é indispensável.
Esta instituição tem, dentre outras, duas premissas básicas: leva em consideração que “o bebê é um sujeito e que a comunicação entre os sujeitos está assentada na linguagem falada e corporal, a linguagem só se constrói na relação com o “outro”, o olhar do encontro, onde o bebê se reconhece. Por isso a importância de fazermos uma reflexão, sobre as nossas observações cotidianas, privilegiando, sempre, o singular. Entenda por “singular” algo que está ligado a olharmos o bebê ou a criança levando em consideração a sua subjetividade.
Entendemos que quanto mais cedo pudermos cuidar das manifestações que a criança apresenta melhor será seu desempenho e desenvolvimento. Às vezes o melhor que se pode fazer não é o suficiente. A relevância da primeira infância nos obriga a não sermos profissionais omissos frente às alterações que a criança poderá manifestar afim de não comprometermos o seu desenvolvimento nos anos que se seguem. É muito importante que os pais olhem as crianças pelo que elas são e não, só, pelo que eles vêem.
Entendemos que a interdisciplinaridade possibilita uma melhor capacitação do profissional da área de educação, quando oferece a este, mais recurso e elementos que possam ajudá-lo na constituição do vínculo com o bebê e nos diversos “saberes” sobre ele. Alguns segmentos já pensam na formalização do modo de participação do cuidador em creche, no desenvolvimento e subjetivação de bebês de até 18 meses, a partir da discussão das funções que lhe concernem: cuidar, educar e prevenir, vocês sabiam?
Essa interação entre os saberes é de fundamental importância, para este “olhar” sobre a criança. O nosso interesse cresce a cada dia e tem nos surpreendido com os resultados e desdobramento, dessa forma de atuar. Essa prática pode agregar valores, contextualizar o que é observado nos diversos espaços e ampliar a nossa possibilidade de “um saber” sobre uma determinada realidade que envolve aquele bebê. Aquele que cuida se sente responsável. Com isso a escola se torna uma via de sustentação possibilitando a família exercer uma “troca” com ela e, portanto ter mais elementos para acompanhar o dia a dia do seu filho, do seu bebê em um ambiente seguro, tranqüilo e aconchegante.
A integração da equipe permite que os profissionais envolvidos troquem as suas observações entre si e possam contemplá-las quando estiver com a criança. Isto vai criando uma capacidade interna de elaboração dos profissionais do grupo, propiciando para cada um uma participação mais ativa no processo. Essa reunião de informações que estão disponibilizadas para o coletivo, enriquece o nosso trabalho e a nossa apropriação sobre o mundo da criança.
 Esta proposta de trabalho é um desafio desta instituição que, cada vez mais, acredita no fazer e considera o lugar da criança, um “lugar sagrado”!
    
 A REFORMA FÍSICA DO BREÇARIO

 Para a reforma física que acontecerá no berçário, contratou-se ‘uma equipe’ para pensar nas mudanças e adaptações necessárias ao funcionamento do estabelecimento e das pessoas envolvidas direta e indiretamente com ele. Uma equipe e diversos olhares para criar um espaço onde o “todo” e o singular sejam contemplados e esta é a pedagogia do Berçário Espaço Singular, pelo menos, uma parte dela.  O espaço deve ser contemplado como algo que venha a imprimir uma qualidade para a vida dos bebês. Ele tem uma função e está diretamente ligado à rotina da escola. Todas as atividades estão pautadas na disposição do espaço, portanto ele precisa e deve ser funcional.  
O espaço tem também um papel de educador quando ele é um facilitador para o aprendizado e possibilita que as trocas sociais aconteçam de forma harmoniosa e em um tempo possível e adequado para os pequeninos.  Já o ambiente envolve não só o espaço físico como o humano e a qualidade desse espaço é muito importante. Esta relação que os pequenos têm com o ambiente que habita é determinante na sua constituição subjetiva e na sua identidade.
A criança, inserida na rede social escolar, precisa se organizar no espaço que habita aprender com ele, circular por ele de forma lúdica e simples.  O uso adequado do ambiente deve ser uma característica a ser contemplada na educação. “O espaço deve ser pensado a partir do ritmo e contexto social da criança”.
 “Promover a competência pensando no ambiente significa planejar situações e intervenções espaciais que possam ajudar a criança a resolver problemas por si mesmos, estimulando a conquista da independência do adulto rumo à autonomia.
Para um pediatra inglês chamado Winnicott, é muito forte a influência que o meio ambiente exerce sobre a constituição da subjetividade do sujeito e diz: inicialmente a vida psicológica do bebê está pautada pela relação com a mãe e com o meio ambiente.
Por isso acreditamos que essas mudanças físicas proporcionarão outras mudanças para a dinâmica da instituição assim como a inauguração de novos espaços!

APRESENTAÇÃO
Aproveitando a contemplação de novos espaços gostaria de falar sobre o meu trabalho nesta instituição, contar um pouco às funções que desenvolvo aqui e que lugar ocupo. Sou Socióloga, Pós Graduada em Psicologia Clinica, Psicanalista, trabalho com bebes, crianças, família e sou Acompanhante Terapêutica.
Estou à disposição nesta instituição porque tenho um conhecimento do infantil, da primeira infância com seus aspectos e do vínculo familiar e social. Estou aqui para que as coisas ocorram bem, para oferecer essa função e ser uma intermediadora. Estou presente na sala de aula, na entrega, na saída, conversas com a diretoria, conversa com os cuidadores, os pais e no Plantão Psicológico.
Minhas funções no berçário se constituem na observação sistemática dos bebês junto com a equipe e atendo no Plantão Psicológico, as quartas-feiras, das 17h30min às 20hs. Esse trabalho com a equipe envolve: intercambiar informações sobre o que foi observado na criança para todos os profissionais dos respectivos grupos, discussões de temas que fazem parte da rotina das crianças através de textos e conversas dirigidas e discussão sobre que tipo de intervenção será adotada.
Já no “Plantão” tenho a oportunidade de encontrar os pais e conversarmos sobre questões de ordem emocionais, comportamentais, psíquicas e outras que surgiram a partir de um determinado momento, envolvendo seu filho. Essas conversas podem ser apenas com os pais ou com os pais e a criança. Após essa primeira conversa, se for o caso, passo a observar de forma mais sistemática a criança dentro do grupo a que pertence e  posteriormente, convido- os para um encontro onde dou uma devolutiva das minhas observações. Assim podemos trocar algumas idéias e propormos sugestões, se for necessário, para uma melhor compreensão do que está acontecendo.
Este dispositivo tem sido relevante no dia a dia com a criança e seus cuidadores. Esse tipo de intervenção impede a permanência de determinados mal estares que causam desconforto para as crianças e dá mais subsídios aos pais para que possam lidar melhor com aquela situação.
O trabalho conjunto permite que a equipe possa lidar com a realidade de uma forma mais participativa, mais grupal, sendo este fator determinante para o tipo de vínculo que a criança vai desenvolver com o outro.  É esta pluralidade que da riqueza ao trabalho, permitindo cuidar de forma preventiva os incômodos que afetam os nossos pequenos.
Obrigado a todos e me coloco à disposição dos presentes para aquilo que acharem necessário!

Vera Meirelles