terça-feira, 30 de julho de 2013

Representações precoces do bebê adotado de sua mãe

Texto da querida Rubia Infante, ex estagiária de psicologia do Espaço Singular,   que acaba de terminar seu mestrado na frança. Quanto orgulho...



Diálogo entre Rubia Infante e Karina Bonalume Freire

É necessário saber como surgiu este texto. A partir de um diálogo entre duas psicólogas sobre um caso clínico em que uma criança que a mãe morreu dois dias após o parto, adotada atualmente com 20 meses começa a pronunciar as suas primeiras palavras. Põem-se as seguintes questões: A criança de aproximadamente dois anos é capaz de representar a sua mãe biológica (perdida dois dias após o parto)? E ainda, essa criança representa a sua mãe adotiva? Outra questão mais abrangente é também pertinente para situarmos as capacidades do bebê: O bebê é capaz de representar as duas mães, a biológica e a adotiva?
Através deste texto, me proponho tentar responder às três questões a fim de adquirirmos uma ideia global sobre as representações humanas do bebê. Entretanto, existe pouca teoria sobre os pontos de vista do bebê. Pelo fato dele não apresentar sua versão em forma de palavras, é difícil de afirmarmos algo a seu respeito. As respostas às questões se baseiam em interpretações do que já se foi estudado sobre esta população.
De fato, o bebê é atualmente alvo de muitos estudos. A partir da observação de bebês nos anos 60 e 70 (em 1963, Esther Bick, com o seu método de observação de bebês, em 1968, Spitz, descreve três etapas importantes no desenvolvimento do bebê, em 1973, Brazelton, com a sua escala « Neonatal de Avaliação Comportamental » e em 1978, Bowlby com a sua teoria do apego) o bebê passou a ser o tema de muitas pesquisas. A partir deste momento, o bebê é percebido como um sujeito ativo, com intenção e personalidade. Nesta mesma época (1976-1978), Françoise Dolto, psicanalista francesa responde em uma emissão de radio, « Lorsque l’enfant paraît », diversas cartas enviadas pelos auditores em torno da criança. Ela defendeu ao longo da sua carreira a ideia que o indivíduo é um sujeito desde bebê. A psicanalista enfatizou a importância do adulto se dirigir através da fala à criança, o que contribui para a construção do seu pensamento (Dolto, 2007). 
O bebê precisa do outro para se desenvolver e para expressar as suas emoções. Sabe-se que muito antes das primeiras palavras, o bebê tem a intenção de compartilhar momentos com o outro. O bebê é um ser ativo e pronto para a relação (Gratier, 2001; Trevarthen, 1999). Este pequeno ser é muito capacitado, ele representa os objetos durante o primeiro ano de vida, o bebê adquire esta capacidade, com 3 meses e meio, ele sabe que um objeto é escondido atrás de alguma coisa, com 7 meses e meio, ele sabe que um objeto é dentro de uma caixa, por exemplo, e aos 12 meses, o bebê pode procurar o objeto escondido (Baillargeon, 1993). Bebês de somente 6 a 8 meses tem a representação dos números, eles correspondem de 2 a 3 sons a 2 a 3 imagens, eles realizam uma tarefa intermodal, eles associam o auditivo ao visual. O conceito do número está ligado à linguagem. Entre 24 meses a 30 meses, é quando ele começa discriminar na língua o singular do plural, ele adquire o conceito do número 1 como oposto dos outros (Wynn, 2000). Ele representa objetos, números, mas, o que é afinal representar? Representar é tornar sensível (um objeto ou uma coisa abstrata) em meio de uma imagem ou de um sinal e, também, é um processo pelo qual uma imagem é apresentada aos seus membros (Robert, 2003). E como se faz para representar, de re-apresentar uma pessoa?
Nosso objetivo é de obter respostas sobre as representações humanas, mais especificamente da mãe do bebê adotado. Para isso, este trabalho é repartido em três eixos. Em um primeiro eixo, abordarei a maneira pela qual o bebê representa a sua mãe biológica, segundo suas impressões sensoriais, em um segundo eixo, abordarei a maneira pela qual o bebê representa um substituto, a sua mãe adotiva, e o último eixo, apresentarei de uma maneira mais global a maneira pela qual o bebê representa as duas realidades, de uma mãe « perdida » e da mãe substituta.
Representação da mãe biológica
A mãe deixa marcas no aparelho psíquico do bebê. Mesmo que a mãe biológica morra depois de 2 dias após o parto, o bebê teve tempo suficiente para tornar presente a sua mãe. Essa, falou com o seu filho (às vezes até mesmo durante a gravidez).
Conforme os estudos dos anos 80, DeCasper e Spence, mostraram que os bebês preferem o conteúdo que eles ouviram durante a gravidez. O feto é sensível ao seu meio ambiente e em particular ao ambiente auditivo. Durante o último trimestre de gravidez, a fala se torna claramente audível e pode ser tratada pelo feto (Querleu & Renard, 1981).
O bebê prefere escutar o que lhe é familiar. Ele é capaz de reconhecer a voz da sua mãe desde o nascimento e a prefere entre as outras vozes. O bebê é sensível à fala materna e também às emoções. Graças à sua capacidade de percepção, o bebê compreende por associações internas o estado emocional de uma pessoa, aquisição essencial no mundo real para uma aprendizagem correta das competências sociais e empáticas (Mastropieri & Turkewitz, 1999). O recém-nascido é assim capaz de diferenciar o conteúdo emocional trazido por uma voz feminina (tristeza versus felicidade), mas unicamente se esta voz se exprime na sua língua materna (Mastropieri & Turkewitz, 1999).
A voz e a língua materna são fatores muito importantes para que a criança possa reconhecer o que lhe é familiar. Mas, o bebê é sensível à maneira como a mãe se comporta com ele, se a sua mãe responde de uma maneira adequada às suas vocalizações, o bebê aprende novas formas vocais, mas se ela não responde de forma adequada, o bebê não aprende. Isto mostra que existe uma influência do comportamento da mãe no aprendizado da fala do bebê (Goldstein e Schwade, 2008). A mãe é uma figura essencial no desenvolvimento psico-emocional-cognitivo da criança. Porém, assim como constatou Winnicott (1969), a mãe pode odiar seu feto desde o começo. E existem mães que conseguem adaptar às necessidades de um filho, mas não com o outro. Isto pode ser um entrave para o desenvolvimento harmonioso do bebê.
Segundo Winnicott (1956), ele ressalta a importância do relacionamento mãe-bebê em sua etapa inicial, do bebê enquanto um ser independente. A mãe está numa condição de sensibilidade extrema durante e principalmente ao final da gravidez. Este período chamado de preocupação materna primária tem uma duração de apenas algumas semanas após o nascimento do bebê e este estado é dificilmente recordado pelas mães depois que o ultrapassam como se na memória, ele fosse reprimido.
A mãe seja ela biológica ou adotiva tem a capacidade para cuidar do bebê, ela pode atingir este estado de preocupação materna primária, na medida da sua capacidade de identificar-se com o bebê. Poderíamos supor que o bebê também precisará identificar-se com a mãe adotiva para poder representá-la.

Representações da mãe adotiva
A mãe adotiva tem a tarefa de cuidar de alguém que não é o seu fruto. Ela vai ser o substituto da mãe biológica. Contudo, o seu objetivo é ter uma relação com a criança de forma mais natural possível. O bebê se desenvolverá segundo a qualidade desta relação. De fato, o desenvolvimento psicológico da criança pode ser descrito por etapas. Os “organizadores” de Spitz são processos de transição. Conforme o autor, a criança passa por transformações fundamentais permitindo ir de um estado ao outro (Spitz, 1993). Um traumatismo durante uma transição terá consequências específicas. Assim, uma ruptura afetiva durante um período de transição pode acarretar graves consequências no desenvolvimento da criança. Se o nascimento foi durante muito tempo considerado como um episódio traumático, principalmente por Freud, não seria na verdade mais adequado afirmar que uma ruptura do vínculo mãe e bebê, seria o acontecimento traumatizante?
Para tratarmos desse trauma, precisaríamos entender melhor o que se passa com o bebê nos primeiros meses de vida. Durante o parto, o bebê passa de um período de dependência total, literalmente fusional, a uma obrigação de autonomia. Após o nascimento, a criança aprende a se nutrir, se esquentar, se ventilar sozinho, etc. No começo, a mãe é considerada como um objeto parcial. Ela não é reconhecida como outra pessoa, como um pensamento diferente. O recém-nascido a imagina a seu serviço. A mãe responde instintivamente às necessidades da criança o que lhe dá um sentimento de exclusividade. A mãe é como uma extensão de seu pensamento. Ela é um intermediário entre o mundo externo e si mesmo.
Assim, o narcisismo primário corresponde a esta ilusão da criança, de que ele seja autossuficiente, já que ele não se distingue de sua mãe. É somente nas primeiras semanas que a criança percebe que uma fonte externa é a origem das respostas aos seus desejos: “nas primeiras 6 semanas, um traço mnésico do rosto humano imprime na memória do recém-nascido, como o primeiro sinal da presença da pessoa que gratifica suas necessidades” (Spitz, 1993). Podemos-nos imaginar as consequências da separação deste casal, desta díade fusional em caso de abandono da criança, se nenhum substituto maternal não intervenha. Trata-se principalmente do que ocorre com as crianças abandonadas. Foi o caso das crianças alocadas nos orfanatos romenos, por exemplo, (Dayan, 2008). A situação dos orfanatos romenos foi muito documentada na década de 1990 pelas mídias internacionais, destacando a necessidade da comunidade internacional responder aos problemas do grande numero de órfãos negligenciados no país. 
O que podemos notar é que por volta dos dois meses, o bebê já é capaz de representar a sua mãe biológica. Será que o que o bebê em questão é capaz de representar também a mãe adotiva ou ele representa as duas mães? Sera que cada uma vai ocupar um lugar diferente, a biológica de funções primárias e a adotiva de complemento? Na verdade, não existem respostas às essas questões, o que veremos a seguir é a adaptação do bebê adotado às duas realidades (duas mães).     



Representação das duas mães
Assim que aparecem as primeiras falas, a mãe adotiva pode sentir dificuldades em aceitar a palavra “mãe” que lhe foi adereçada. Porém, o bebê consegue se adaptar bem à nova realidade, à nova mãe. A pessoa que tornou o substituto de sua mãe biológica é uma variável maior na organização psíquica do bebê e na surgição dos laços afetivos de boa qualidade. O trauma da ruptura do primeiro vínculo materno, pode ser solucionado por uma adaptação da mãe substituta em cuidar do seu filho. Winnicott concorda com a psicanalista Anna Freud ao fato de não culpabilizar a mãe por suas falhas; os desapontamentos e as frustações são inseparáveis da relação mãe-criança. Embora, a mãe pode ocupar um dos dois lugares possíveis segundo a sua qualificação, entre suficiente boa ou não. O lugar de mãe suficiente boa ocorre a partir do momento em que o ambiente possibilita ao bebê alcançar um estado optimal do seu desenvolvimento e contrariamente, no ambiente não suficiente bom, o bebê não pode se desenvolver adequadamente.
Antes de tudo, o que se almeja é uma relação “saudável” entre duas pessoas, o que pode ser chamado de « equilíbrio homeostático » (Mahler, 1954 citado por Winnicott, 1956) ou também de harmonização afetiva (Stern, 1985) em que o autor apresenta que uma harmonização transmodal (entre os dois protagonistas) permite uma sintonia entre os estados afetivos de cada um. Este fenômeno, considerado como “o relacionamento simbiótico”, pode ser verificado na relação mãe-bebê, assim que a mãe é biologicamente condicionada para a sua tarefa de cuidar, ela dispõe de um cuidado atentivo com as necessidades do bebê. A mãe pode ser consciente ou não da relação que possui com o seu bebê. De fato, existe uma identificação da mãe com o bebê e uma dependência do bebê em relação à mãe.   
O bebê apesar de frágil às circunstâncias da vida, ele é um ser ativo que demanda e interpela a atenção do outro. Ainda bem que existem mães suficientes boas para cuidar de crianças que a principio não eram os seus frutos, mas que com o tempo uma verdadeira relação mãe e filho tenha se instaurado.        
Conclusão
As representações precoces são multissensoriais. O bebê pode representar o outro e o seu mundo porque ele é capaz de sentir. O bebê sente (tactilmente, ouve, “degusta”, cheira e vê) todos que o cercam, ou seja, se começa pela mãe, biológica e/ou adotiva para em seguida relacionar com todos os outros membros da família.
                  Os bebês adotados, o mais cedo possível, se favorecem das noções de adaptação. O cérebro do bebê no seu primeiro ano de vida não está completamente formado e as novas experiências com os outros seres humanos permitem uma configuração adequada do mesmo devido à plasticidade cerebral e as noções de epigenética. Haverá, assim, um período de « gravidez ex-útero », durante o primeiro ano de vida do bebê, no qual ele tem uma grande necessidade de contato e calor, indispensáveis ao bom desenvolvimento de seu cérebro e de seu ser. O acolhimento é uma condição de segurança e é uma maneira de preencher a necessidade de maturação e desenvolvimento.
                  Com efeito, independentemente do substituto, se ele for suficiente bom, o trauma da ruptura do laço primário não será tão abrupto e o bebê desta forma, poderá tornar presente a sua mãe biológica através da mãe que o acolheu.
Referências bibliográficas
Baillargeon R. The object concept revisited: New directions in the investigation of infants’ physical knowledge. In: Granrud CE, editor. Visual perception and cognition in infancy. Hillsdale, N.J: Erlbaum; 1993. pp. 265–315.

Dayan, J., (2008). La dépression du nourrisson. Ses relations avec la carence affective et les troubles des interactions précoces. Médecine Thérapeutique Pédiatrie, vol. 11, n°2.

DeCasper, A.J. & Spence, M.J. (1986). Prenatal maternal speech influences newborns’ perception of speech sounds. lnfant Behavior and Development, 9, 133-150.

Dolto, F. (2007). Lorsque l’enfant paraît. Anthologie radiophonique 1976-1977.

Goldstein, M.H., & Schwade, J.A. (2008). Social feedback to infants’ babbling facilitates rapid phonological learning. Psychological Science, 19, 515-522.

Gratier, M. (2001). Harmonies entre mère et bébé. Accordage et contretemps, Enfances & Psy, 13, 9-15.

Mastropieri, D., & Turkewitz, G. (1999). Prenatal experience and neonatal responsiveness to vocal expressions of emotion. Developmental Psychobiology, 35, 204–214.

Querleu, D., & Renard, K. (1981). Les perceptions auditives du fœtus humain. Medicine & Hygiene, 39, 2102-2110.

Robert. 2003. « Représentation». In « Robert. Dictionnaire pratique de la langue française» Paris: éd. France Loisirs, p.1460.

Spitz, R., (1993). De la Naissance à la Parole. PUF, 306 paginas.

Stern, D. (1985). The interpersonal world of the infant / trad. de l'américain : Le monde interpersonnel du nourrisson, Paris, PUF, 1989.

Trevarthen, C. (1999). Musicality and the intrinsic motive pulse. In “Rhythms, musical narrative, and the origins of human communication”. Musicae Scientiae, Special Issue, 1999-2000 (pp. 155-215). Liège: European Society for the Cognitive Sciences of Music.   

Winnicott, D.-W. (1956, 1969). De la pédiatrie à la psychanalyse. Paris, Petite bibliothèque Payot, 1983.

Wynn, K. (2000). Findings of Addition and Subtraction in Infants Are Robust and Consistent: Reply to Wakeley, Rivera, and Langer. Child Development, November/December, volume 71, Number 6, pages 1535-1536.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Festa Junina 2013


Estamos novamente às voltas com a festa junina. Neste ano nós decidimos manter os moldes do ano passado. Estamos preparando uma festa feita pelas crianças, para as crianças cujo tema será Luiz Gonzaga, o rei do baião*. Teremos um grupo de sanfoneiros, pipoca, cachorro quente, churrasco, quentão, quadrilha e muitas bandeirinhas feitas também pelas crianças enfeitando a escola.

Porque decidimos não incluir os pais nessa festa?
Porque cada vez mais em nossas reflexões nos damos conta da importância das crianças terem também o espaço próprio na escola e nós escolhemos a festa junina como a única festividade anual só para eles. As crianças poderão experimentar sabores, cores, brincadeiras, identificar os sons da cultura brasileira, correr, brincar e dançar. 

Fugir dos moldes, do que é esperado nunca é fácil. Somos sempre questionados nesse sentido porque é mais simples e fácil trabalhar nos moldes comerciais com barraquinhas, e prendas. Porém, qual seria o aprendizado para os pequenos trabalharem no molde tradicional? Seria o mesmo que brincar livremente? Seria o mesmo que participar de uma festa feita por eles e para eles? Nós achamos que não.

Este ano os alunos do G3 farão parte da comissão de organização da festa, que orgulho!  Nós desejamos que as crianças vivenciem esta autonomia e responsabilidade pela primeira vez com muita liberdade, em um espaço social pensado por eles e para eles. Os menores participarão  da decoração da festa e irão participar de rodas de história,  brincadeiras e danças, porque o dia deles organizarem sua própria festa irá chegar em breve... Eles crescem rápido. Às vezes rápido demais.

* Luiz ‘Lua’ Gonzaga ‘Gonzagão’ do Nascimento (Exu, 13 de dezembro de 1912  Recife, 2 de agosto de 1989) foi um compositor popular brasileiro, conhecido como o Rei do baião.2 Foi uma das mais completas, importantes e inventivas figuras da música popular brasileira. Cantando acompanhado de sua sanfona, zabumba e triângulo, levou a alegria das festas juninas e dos forrós pé-de-serra, bem como a pobreza, as tristezas e as injustiças de sua árida terra, o sertão nordestino, ao resto do país, numa época em que a maioria desconhecia o baião, o xote e o xaxado.
Admirado por grandes músicos, como Dorival Caymmi, Gilberto Gil, Raul Seixas, Caetano Veloso, entre outros, o genial instrumentista e sofisticado inventor de melodia e harmonias,3 ganhou notoriedade com as antológicas canções "Baião" (1946), "Asa Branca" (1947), "Siridó" (1948), "Juazeiro" (1948), "Qui Nem Jiló" (1949) e "Baião de Dois" (1950).2 http://www.luizluagonzaga.mus.br

segunda-feira, 4 de março de 2013

Atirei o pau no gato...


Atirei o pau no gato...
Este é um assunto polêmico na educação, pelo menos aqui no Espaço Singular. Devemos ou não cantar a cantiga infantil “Atirei o pau no gato”.  
Desde que o Espaço Singular foi fundado me deparo com uma continuação da música que orienta as crianças a não atirar o pau no gato, mais ou menos assim:
‘Não atire o pau no gato porque é feio, não machuque os animais”
Existem diversas versões deste desfecho, mas a ideia é sempre a mesma. Orientar as crianças a não machucar os animais.
Oras, se o adulto que canta a música acha que ao cantá-la estará instigando a agressividade das crianças com relação ao pobre gato, sempre há a opção de não cantá-la. Acho particularmente esquisito cantar uma música, para imediatamente corrigi-la.
Penso que a música é inofensiva, mas do que isso, acho que, tal qual os contos de fadas, ajuda a criança a elaborar sua própria agressividade e entender que seus atos, por ainda ser uma criança pequena, não tem poder de matar o outro.  “Atirei o pau no no gato, mas o gato não morreu”. Dona Chica, por sinal, representa o mundo adulto que se admira com o ato da criança e seus efeitos.
Aqui no Espaço Singular, a maioria de nós,  entende que os contos de fadas, as cantigas, tem uma função para a criança, função de elaboração psíquica e por isso, só por isso, foram capazes de sobreviver oralmente por tantas gerações.  Mas, quando nos deparamos com uma  educadora que pensa que a música é agressiva, politicamente incorreta, ela  é respeitada em sua opinião, mas orientada a simplesmente não contá-la, cantar outras músicas no lugar desta, que não exijam uma correção moral. E vocês, o que pensam sobre isso?

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

terça-feira, 27 de novembro de 2012

INTERDISCIPLINARIDADE EM UMA INSTITUIÇÃO


TEXTO APRESENTADO POR VERA MEIRELLES EM PALESTRA REALIZADA NO ESPAÇO SINGULAR EM  24 DE NOVEMBRO DE 2012. ESTIVERAM PRESENTES PAIS, EDUCADORES E EQUIPE DO STUDIO SAPU.

PALESTRA SOBRE A INTERDISCIPLINARIDADE EM UMA INSTITUIÇÃO

Pensamos em promover esse encontro  em função das reformas que acontecerão aqui no final de ano e torná-los a par da escolha pedagógica do Berçário que segue a linha Construtivista.
Existe uma concepção sobre o Construtivismo que simpatizo muito: “significa a idéia de que nada, a rigor está pronto, finalizado e de que, especificamente, o conhecimento não é dado, em nenhuma instância como algo acabado, ele está sempre em movimento. Ele se constitui a partir da interação do indivíduo com o meio físico e social, com o simbolismo humano, com o mundo das relações sociais e se constitui por força de sua ação e não por qualquer dotação prévia”.
Essa escolha pedagógica que reúne várias competências tem como foco a complementaridade de um “olhar” sobre a criança e seu entorno. 
O Berçário Espaço Singular, conta com uma equipe multidisciplinar composta por pedagogos, psicólogos, psicanalista, nutricionista, psicopedagogos, fisioterapeuta, terapeuta ocupacional, auxiliar de enfermagem, pediatra, cuidadores e agora uma arquiteta visando, todos, promover um “lugar” para as demandas manifestadas pelos bebês, ao longo do seu crescimento.
 A Interdisciplinaridade e o Construtivismo estão na mesma linha de pensamento. A Reforma a ser feita é um exemplo dessa construção interdisciplinar assim como o nosso objetivo, também é formar uma equipe que tenha um conhecimento sobre essas diversas disciplinas, desta forma a equipe se aperfeiçoa, assim com eu. A Escola também valoriza a participação da família e a função parental nos diversos aspectos do desenvolvimento dos pequenos e por isso seu interesse em querer que os pais se apropriem também, dos dispositivos e lugares que esta lhes oferece.
A presença dos pais é fundamental para a passagem da família para o mundo de vocês. Vocês contribuem, estando em sintonia conosco, para a futura socialização. Tem uma passagem da família para a escola. Aqui é um lugar de separação e encontro com a procura. É difícil para os familiares assim como para as crianças. A comunicação entre a equipe e os pais é indispensável.
Esta instituição tem, dentre outras, duas premissas básicas: leva em consideração que “o bebê é um sujeito e que a comunicação entre os sujeitos está assentada na linguagem falada e corporal, a linguagem só se constrói na relação com o “outro”, o olhar do encontro, onde o bebê se reconhece. Por isso a importância de fazermos uma reflexão, sobre as nossas observações cotidianas, privilegiando, sempre, o singular. Entenda por “singular” algo que está ligado a olharmos o bebê ou a criança levando em consideração a sua subjetividade.
Entendemos que quanto mais cedo pudermos cuidar das manifestações que a criança apresenta melhor será seu desempenho e desenvolvimento. Às vezes o melhor que se pode fazer não é o suficiente. A relevância da primeira infância nos obriga a não sermos profissionais omissos frente às alterações que a criança poderá manifestar afim de não comprometermos o seu desenvolvimento nos anos que se seguem. É muito importante que os pais olhem as crianças pelo que elas são e não, só, pelo que eles vêem.
Entendemos que a interdisciplinaridade possibilita uma melhor capacitação do profissional da área de educação, quando oferece a este, mais recurso e elementos que possam ajudá-lo na constituição do vínculo com o bebê e nos diversos “saberes” sobre ele. Alguns segmentos já pensam na formalização do modo de participação do cuidador em creche, no desenvolvimento e subjetivação de bebês de até 18 meses, a partir da discussão das funções que lhe concernem: cuidar, educar e prevenir, vocês sabiam?
Essa interação entre os saberes é de fundamental importância, para este “olhar” sobre a criança. O nosso interesse cresce a cada dia e tem nos surpreendido com os resultados e desdobramento, dessa forma de atuar. Essa prática pode agregar valores, contextualizar o que é observado nos diversos espaços e ampliar a nossa possibilidade de “um saber” sobre uma determinada realidade que envolve aquele bebê. Aquele que cuida se sente responsável. Com isso a escola se torna uma via de sustentação possibilitando a família exercer uma “troca” com ela e, portanto ter mais elementos para acompanhar o dia a dia do seu filho, do seu bebê em um ambiente seguro, tranqüilo e aconchegante.
A integração da equipe permite que os profissionais envolvidos troquem as suas observações entre si e possam contemplá-las quando estiver com a criança. Isto vai criando uma capacidade interna de elaboração dos profissionais do grupo, propiciando para cada um uma participação mais ativa no processo. Essa reunião de informações que estão disponibilizadas para o coletivo, enriquece o nosso trabalho e a nossa apropriação sobre o mundo da criança.
 Esta proposta de trabalho é um desafio desta instituição que, cada vez mais, acredita no fazer e considera o lugar da criança, um “lugar sagrado”!
    
 A REFORMA FÍSICA DO BREÇARIO

 Para a reforma física que acontecerá no berçário, contratou-se ‘uma equipe’ para pensar nas mudanças e adaptações necessárias ao funcionamento do estabelecimento e das pessoas envolvidas direta e indiretamente com ele. Uma equipe e diversos olhares para criar um espaço onde o “todo” e o singular sejam contemplados e esta é a pedagogia do Berçário Espaço Singular, pelo menos, uma parte dela.  O espaço deve ser contemplado como algo que venha a imprimir uma qualidade para a vida dos bebês. Ele tem uma função e está diretamente ligado à rotina da escola. Todas as atividades estão pautadas na disposição do espaço, portanto ele precisa e deve ser funcional.  
O espaço tem também um papel de educador quando ele é um facilitador para o aprendizado e possibilita que as trocas sociais aconteçam de forma harmoniosa e em um tempo possível e adequado para os pequeninos.  Já o ambiente envolve não só o espaço físico como o humano e a qualidade desse espaço é muito importante. Esta relação que os pequenos têm com o ambiente que habita é determinante na sua constituição subjetiva e na sua identidade.
A criança, inserida na rede social escolar, precisa se organizar no espaço que habita aprender com ele, circular por ele de forma lúdica e simples.  O uso adequado do ambiente deve ser uma característica a ser contemplada na educação. “O espaço deve ser pensado a partir do ritmo e contexto social da criança”.
 “Promover a competência pensando no ambiente significa planejar situações e intervenções espaciais que possam ajudar a criança a resolver problemas por si mesmos, estimulando a conquista da independência do adulto rumo à autonomia.
Para um pediatra inglês chamado Winnicott, é muito forte a influência que o meio ambiente exerce sobre a constituição da subjetividade do sujeito e diz: inicialmente a vida psicológica do bebê está pautada pela relação com a mãe e com o meio ambiente.
Por isso acreditamos que essas mudanças físicas proporcionarão outras mudanças para a dinâmica da instituição assim como a inauguração de novos espaços!

APRESENTAÇÃO
Aproveitando a contemplação de novos espaços gostaria de falar sobre o meu trabalho nesta instituição, contar um pouco às funções que desenvolvo aqui e que lugar ocupo. Sou Socióloga, Pós Graduada em Psicologia Clinica, Psicanalista, trabalho com bebes, crianças, família e sou Acompanhante Terapêutica.
Estou à disposição nesta instituição porque tenho um conhecimento do infantil, da primeira infância com seus aspectos e do vínculo familiar e social. Estou aqui para que as coisas ocorram bem, para oferecer essa função e ser uma intermediadora. Estou presente na sala de aula, na entrega, na saída, conversas com a diretoria, conversa com os cuidadores, os pais e no Plantão Psicológico.
Minhas funções no berçário se constituem na observação sistemática dos bebês junto com a equipe e atendo no Plantão Psicológico, as quartas-feiras, das 17h30min às 20hs. Esse trabalho com a equipe envolve: intercambiar informações sobre o que foi observado na criança para todos os profissionais dos respectivos grupos, discussões de temas que fazem parte da rotina das crianças através de textos e conversas dirigidas e discussão sobre que tipo de intervenção será adotada.
Já no “Plantão” tenho a oportunidade de encontrar os pais e conversarmos sobre questões de ordem emocionais, comportamentais, psíquicas e outras que surgiram a partir de um determinado momento, envolvendo seu filho. Essas conversas podem ser apenas com os pais ou com os pais e a criança. Após essa primeira conversa, se for o caso, passo a observar de forma mais sistemática a criança dentro do grupo a que pertence e  posteriormente, convido- os para um encontro onde dou uma devolutiva das minhas observações. Assim podemos trocar algumas idéias e propormos sugestões, se for necessário, para uma melhor compreensão do que está acontecendo.
Este dispositivo tem sido relevante no dia a dia com a criança e seus cuidadores. Esse tipo de intervenção impede a permanência de determinados mal estares que causam desconforto para as crianças e dá mais subsídios aos pais para que possam lidar melhor com aquela situação.
O trabalho conjunto permite que a equipe possa lidar com a realidade de uma forma mais participativa, mais grupal, sendo este fator determinante para o tipo de vínculo que a criança vai desenvolver com o outro.  É esta pluralidade que da riqueza ao trabalho, permitindo cuidar de forma preventiva os incômodos que afetam os nossos pequenos.
Obrigado a todos e me coloco à disposição dos presentes para aquilo que acharem necessário!

Vera Meirelles